sábado, 10 de março de 2012

Ana e o pernilongo.

              
   
              Havia um pernilongo
              chamado Lino
              que tocava violino.
              Mas era tão pequenino          
              o Lino
              e tocava tão fino
              o seu violino,
              que nunca ouvi o Lino
              nem vi o Lino.
       
                          Autor: José  Paulo Paes.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Feira de literatura. "Nos livros está tudo."


    Que haverá nos livros?- costumava perguntar a mim mesma quando tinha três ou quatro anos, sentada  no meu  banquinho, na livraria de meus avós.
   Atrás do caixa sentava-se a avó. Do outro lado do balcão,  a minha mãe esperava os clientes. Por detrás dela, as estantes chegaram até ao teto e, para se poder alcançar os livros das prateleiras de cima, uma grande escada suspensa de uma barra de ferro por dois ganchos, deslizaram da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Não pensem que me aborrecia! Quando um cliente entrava na loja, eu punha-me a adivinhar: irá escolher um livro das estantes inferiores, ou interessar-se-á, por algum colocado nas de cima? Jovem, ágil e inteligente,  a minha mãe sabia onde colocar cada livro, subia a escada se necessário, descia com um livro de capa azul, vermelha ou dourado e colocava-o diante do comprador. Eu sentia-me orgulhoso da minha mãe e cada vez me interessava mais e mais pelo que pudesse existir nos livros. Nas filas de baixo, também havia os de capas  azul, vermelha ou dourado, cheios de letras negras, pequeninhas, mas nenhum tinha desenhos tão bonitos como os meus!
    Em minha casa toda a gente lia. Ao observar os seus rostos inclinados sobre um livro, ao ver que ás vezes sorriam, outras vezes se punham sérios, e que certos momentos viraram a página com uma atenção tensa, interroga-me: Por onde andaram? Se lhe falo, não me ouvem e, quando por fim me presta atenção, parecem acabados de sair de algum lugar distante. Por que não me levam com eles?Que existe afinal nos livros? Qual é o segredo que não querem me contar? Mais tare aprendi  a ler. E descobri, enfim o segredo dos livros, descobri que neles estava tudo. Não apenas fada, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos  tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas: o bem e o mal, verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abra um livro! Ele participará contigo todos os seus segredos.
 
     
        Autora: Eva Jarukovszky.

Nunca diga.

             

             Nunca diga
             o que eu digo.
             Se eu digo
             "essa flor é vermelha",
             Diga:
             "essa flor é amarela",
           
             Se eu digo:
             "não arranque esta flor",
             diga:
             "vou arrancar esta flor",

            Se eu digo:
            "cuidado com os espinhos",
            diga:
            "não ligo para os espinhos",

            não diga
            o que eu digo,
           por isso
           não poderá dizer:
           "esta flor é amarela"
           "vou arrancar esta flor"
           "não ligo para  os espinhos"
     
          pois quem disse
          fui eu
          e não você.
         
         Então, agora,
         o que tem
         a me dize?


                        Autor: Heitor Ferraz.


           

Relógio.

    
     As coisas são
     As coisas vêm
     As coisas vão
     As coisas
    Vão e vêm
    Não em vão
    As horas
    Vão e vêm
    Não em vão


          Autor: Oswald de Andrade

Procura da poesia.

    [...]
    Penetra surdamente no reino das
     palavras
    Lá estão os poemas que esperam
    ser escritos.
    Estão paralisados, mas não há
    desespero,
    há calma e frescura na superfície
    intata.
    Ei-los sós e mudos, em estado e
    dicionário.
    Convive com teus poemas, antes
    de escrevê-los.
    Tem paciência se obscuros. Calma,
    se te provocam.
    Espera que cada um se realize e
    consume com seu poder e
    palavras  e seu poder de silêncio.
    Não forces o poema a
    desprender-se do limbo.
    Não colhas no chão o poema
   que se perdeu.
    Não adules o poema. Aceita-o
    como ele aceitará sua forma
    definitiva e concentrada
    no espaço.

   Chega mais perto e contempla as
    palavras.
   Cada uma
   tem mil faces  secretas sob a face
   neutra e te pergunta, sem interesse
   pela resposta,
   pobre ou terrível, que lhe deres:
   Trouxeste a chave?

   Repara:
   ermas de melodia e conceito
   elas se refugiaram na noite, as palavras.
   Ainda úmidas e impregnadas de sono,
   rolam num rio difícil  e se transformam
   em desprezo.


               Autor: Carlos Drummond de
                          Andrade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Poema.

            A poesia está guardada nas
            palavras- é tudo que eu sei.
            Meu fado é o de não saber
            quase tudo. 
            Sobre o nada eu tenho
            profundidades.
            Não tenho conexões com
             a realidade.
            Poderoso para mim não é aquele
            que descobre ouro.
            Para mim poderoso é aquele
            que descobre as insignificâncias
           (do mundo e as nossas).
            Por essa pequena sentença me
            elogiaram de imbecil.
            Fiquei emocionado e chorei.
            Sou fraco para elogios.

                       Autor: Manoel e Barros.





terça-feira, 6 de março de 2012

Traduzir-se

            Uma parte de mim é todo mundo
            outra parte é ninguém: fundo sem
            fundo.

            Uma parte de mim é multidão:
            Outra parte estranheza e solidão.

            Uma parte de mim pesa, pondera:
            outra parte delira.

            Uma parte de mim almoça e janta:
            outra parte se espanta.

            Uma parte de mim é permanente:
            outra parte se sabe de repente.

            Uma parte de mim é só vertigem:
            outra parte, linguagem.

          Traduzir uma parte na outra parte
           -que é uma questão de vida ou
            morte-
           será arte?


                        Autor: Ferreía Gullar