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segunda-feira, 12 de março de 2012

As formigas.

   


    Foi a coisa mais bacana  a primeira vez que as formigas conversaram com ele. Foi  a que escapuliu da procissão que conversou: ele estava olhando para ver aonde que ela ia, e aí ela falou para ele não contar pro padre que ela tinha escapulido - o padre ele já tinha visto que era o formigão da frente, o maior de todos, andando posudo.
     Isso aconteceu numa manhã de muita chuva em que ele ficara no quentinho das cobertas, com preguiça de se levantar ; virando para o outro canto, observando as formigas descendo em fila na parede. Tinha um rachado ali perto por causa da chuva, era de lá que elas saíram, a casa delas.
    Toda manhã aquela chuva sem parar, pingando na lata velha lá de fora no jardim, barulhinho gostoso que ele ficava ouvindo, enrolado no cobertor, olhando as formigas e conversando com elas, o quarto meio escuro, tudo escuro da chuva.
    A conversa ficava interessante quando ele lembrava de perguntar uma porção e coisas, e elas também perguntavam pra ele. (Conversavam baixinho, para os outros não escutarem.) Mas às vezes não lembrava nada para conversarem, e ficava chato, ele acabava dormindo - formiga tinha horá que era feito gente mesmo.
    O bom é que ninguém precisava gritar, nem também mentir, como as pessoas estavam sempre fazendo. E também poder ficar olhando assim, sem falar nada, só olhando, sem precisar falar [...]. Tão bom que nem sabia direito se estava acordado mesmo ou sonhando, as formigas uma atrás da outra, descendo, a fila certinha.
   Uma tarde entrou no quarto e viu a mancha de cimento novo na parede, brutal, incompreensível.
   -Pra quê que o senhor fez isso? Pra quê que o senhor fez assim com minhas formigas?
   O pai não entendia, e o menino chorando, chorando. Então o pai deu no espalho. Mas a mãe pediu  para ele ter paciência: nesse tempo de chuva as crianças ficam muito excitadas porque não podem sair à rua e não têm onde brincar.
   De manhã o menino acordava e olhava para a mancha de cimento na parede. Ficava olhando, até que sentia um bolo  na garganta, e cobria a cabeça com o cobertor.


            Autor: Luiz Vilela.

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